VENTO, LENÇO E DOCUMENTO

Pelos becos, pelos cantos, pelas margens. O desenho é marca, sinal, cicatriz, registro permanente da relação no homem com os mistérios da vida. O desenho é tempo e espaço, reduto de simplicidade, discreta presença. Das marcas nas cavernas às imagens gráficas do mundo contemporâneo, o desenho é figura permanente, companheiro do homem na sua curta aventura de vida. O desenho é o território da confissão.

O desenho é a base, é o ato inicial e duradouro que pontua toda a trajetória de Sérgio Rabinovitz. Para as pessoas de nossa geração, filhotes do autoritarismo, o desenho é história do nosso caminho. Num mundo prestes a ser dominado pela hierarquia e a mentalidade militarista que domina a tecnologia, o desenho há de estar vivo nos banheiros públicos, nos ralos da cultura, nos muros dos parques proletários e nos cadernos esquecidos num canto qualquer de gaveta. Riscar, rabiscar, rasgar, são ações que não obedecem a ordem alguma. O desenho é incorrigível, é inevitável. E se ele se presta à representação, à cópia, ao símbolo, ele se faz fundamentalmente com essência.

Nos trabalhos de Sérgio Rabinovitz o desenho agride, ameaça, abraça, aperta, morde, beija, sua, sangra, fere e cicatriza. O desenho grava e crava na pele as marcas da paixão. A cor se revela feito às vísceras e o sangue de um corpo que oscila entre a dor do dilaceramento e as delícias do prazer. Em Sérgio não há espaço para o gesto tímido, inseguro, não existem floreados nem alegorias desnecessárias. O gesto é viril, decidido e seguro. O artista domina a cena como um maestro impõe seu ritmo à orquestra. Cada gesto revela um ritmo, uma pulsão. Cada gesto é o renascer de uma imagem que se impõe definitiva diante do olhar de cada espectador. Há, portanto, em cada ação do artista um compromisso com a generosidade da arte. Em certos momentos ele parece quer dialogar com Matisse e fazer de cada quadro uma glorificação do prazer e uma comunhão com a vida. Entretanto persiste ainda no artista a alma marginal, o desconforto e a inquietude e a paisagem se deixa ferir pelo vigor das incisões que o artista impõe.

Houve um tempo em que se cantava “caminhando contra o vento, sem lenço sem documento”. Essa era a máxima de uma geração agredida pelo poder e que acreditava na liberdade e no amor. Os tempos passaram e as coisas não são mais as mesmas. O desejo, porém, é imorredouro, e a liberdade é uma luta constante. Hoje, queremos vento, lenço e documento. Os desenhos de Sérgio Rabinovitz não temem mais o confronto com o poder, o embate com a história e com as instituições. Eles são produtos da arte verdadeira elaborados por um artista consciente de seu universo da ação. As suas naturezas mortas, as suas paisagens falam da cor, da luz, e da urbanidade. Elas refletem o fascínio maravilhoso da primeira capital do Brasil, a força e a voz da Bahia. Mas eles não se limitavam ao epidérmico ou as ações meramente folclóricas. Cada obra de Sérgio Rabinovitz resgata as vozes do passado: o desespero do barroco, o lamento dos negros. E elas se impõem no cenário artístico brasileiro como uma importante contribuição ao nosso modernismo. Modernas, modernas sim, eternamente modernas, com lenço e com documento, como registro e identidade. Engana-se, todavia, quem pensa que a idade enfraquece, que a razão esmorece: cada gesto de Sérgio Rabinovitz é um gesto consciente e definitivo, mas é também – e antes de tudo – o registro de uma luta, de um compromisso determinado pelo caráter subversivo e transformador da arte. É preciso ter olhos para ver e compreender toda a força e o poder contidos numa simples representação de uma maçã… É preciso aprender que a verdade pode ser encontrada nas coisas simples, uma paisagem plácida cuja tranquilidade é rompida pelo raio de cada olhar transformador.
Marcus de Lontra Costa
Rio. Julho de 1996.

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